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A máquina de escrever e o jornal do poste

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*José Nário

Creio que devo me sentir privilegiado por poder assistir às grandes mudanças ocorridas na evolução das comunicações durante os últimos cinquenta anos. Transformações significativas aconteceram em pouco tempo e é impossível não notá-las. Elas aparecem em todos os campos da comunicação e me deixam verdadeiramente assombrado com tanta evolução.

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Mas, vez por outra ouvimos notícias de fatos que caminham na contramão desse desenvolvimento admirável. Por exemplo: dia desses vi uma reportagem sobre um senhor que sobrevive comercializando máquinas de escrever na cidade de São Paulo, vendendo para todo o Brasil. Veja bem, máquinas de escrever…

A primeira reação seria pensar: 

− Afinal, elas não foram aposentadas há tempos, sufocadas pela tecnologia dos computadores pessoais, notebooks e tablets?

Sim, foram aposentadas. Mas, a exemplo dos discos de vinil, têm seus admiradores e até usuários contumazes nos dias de hoje. É o que afirmaram lá naquela matéria sobre o comerciante de máquinas de escrever. 

Essa história me trouxe à lembrança a minha própria experiência com uma maravilha dessas, uma Remington de mesa, usada em escritórios nos anos sessenta e setenta do século vinte. Não me recordo se tinha alguma designação específica (número do modelo etc.), mas me lembro muito bem que era tão pesada que eu tinha dificuldade de transportá-la de um lugar para outro.

Tudo começou no princípio dos anos setenta do século passado. Naquela época apareceu, lá na minha pequena cidade, uma das muitas que existem no Sul de Minas, um pessoal oferecendo um curso de datilografia.

Minha mãe, uma novidadeira juramentada e admiradora secreta da datilografia, logo se assanhou com a possibilidade de aprender a escrever naquela coisa tão incrível chamada de máquina de escrever. Mas ela era uma pessoa muito ocupada. Assim, não conseguiu encontrar um tempinho para essa nova atividade. 

Então, fica fácil de deduzir, sobrou pra mim que, naquela época, não tinha mais do que uns 12 ou 13 anos. Bem, eu fiz o curso e recebi um certificado exibido orgulhosamente para quem quisesse ver. E aprendi, não muito perfeitamente, a datilografar. Estava mais para “catar milho” ou praticar a “catilografia”. Então pensei: 

− O que vou fazer com essa nova habilidade? 

Aí eu perguntei pra minha mãe:

− Terminei o curso, mãe, o que é que vou fazer com ele se não tem nenhuma máquina de escrever aqui em casa?

Ela já tinha se prevenido quanto a isso e disse:

− Você é bobo, ein? Acha que eu já não pensei nisso? Comprei uma máquina. É usada, mas toda reformada. Funcionando direitinho e com garantia.

O próprio pessoal do curso de datilografia vendia as máquinas, novas ou usadas, numa demonstração de oportunismo comercial. Bom, uma parte do problema estava resolvida. Agora tínhamos uma máquina de escrever. Um bloco de aço todo pintadinho de azul claro e pesado como uma bigorna.  Mas qual seria sua utilidade? Foi a pergunta seguinte que fiz à minha genitora. Sem pestanejar, ela respondeu:

− Quero escrever umas cartas para umas amigas. E você vai bater tudo na máquina. Vamos começar pela minha querida amiga Benildes, que mora em Arapongas, no Paraná. 

Eu quis argumentar contra, sem sucesso:

− Mas, mãe, cartas para amigos e parentes têm que ser manuscritas. Quem escreve cartas batidas à máquina são empresas, escritórios de advocacia, bancos…

Ela nem esperou eu terminar e falou com autoridade:

− Cala a boca! Eu comprei e paguei a máquina. Então escrevo carta pra quem eu quiser nela! E você bate aí sem reclamar! Vamos começar já!

E assim foi. Escrevi umas três ou quatro cartas para as amigas de minha mãe e a máquina descansou por um tempo. Enfrentou um período de ostracismo, deixando de ser um objeto de veneração da família. Muito de vez em quando eu a usava para datilografar um trabalho escolar. Exceção entre os colegas e muito chique para a época. 

A máquina, no entanto, contribuiu grandemente para a minha vontade de ser escritor. Eu olhava pra ela e sentia que um dia seríamos uma dupla. Já era um leitor compulsivo e não demoraria em começar a contar minhas próprias histórias. Isso era o que eu pensava. 

Contudo, por mais que me esforçasse, a inspiração necessária não vinha. Descobri então como era difícil a profissão de escritor. Não bastava ter a máquina de escrever. Precisava também, e em primeiro lugar, da criatividade. Pacientemente, a máquina esperava lá no seu lugar. Todos os dias, por várias vezes, eu parava e ficava a observá-la por um tempo. Sonhando com os futuros textos produzidos nela. 

Um dia, meio que por acaso, descobri uma função para aquela maravilhosa criação do engenho humano.

Vi uma reportagem na TV, ainda preto e branco e com muito chuvisco, que falava da iniciativa de um jornalista aposentado, residente em algum dos muitos municípios do interior de Minas Gerais, aonde não chegavam os jornais impressos. Ele havia criado um “jornal do poste” lá na sua pequena cidade. 

O abnegado profissional datilografava as notícias mais relevantes do dia e pregava num poste do centro da cidade. E tinha muitos leitores. Aquilo provocava também pequenas aglomerações ali nos arredores, com as pessoas interagindo e discutindo as notícias reportadas pelo “jornal do poste”.

Gostei da ideia e resolvi imitar. Fundei então o meu “jornal do poste”. Nossa pequena cidade também não recebia nenhum dos jornais impressos de circulação nacional e nem mesmo aqueles de atuação regional. Então eu escrevia à máquina as notícias que passavam na TV − ou divulgadas pelo rádio − e colava as folhas de sulfite no poste em frente ao comércio de minha mãe, que era a minha patrocinadora exclusiva.  

Morávamos em uma das esquinas mais movimentadas da cidade, ao lado da igreja matriz. E, no início, o meu jornal do poste até que atraiu alguns leitores. Com isso, eu acabei fazendo um trabalho de pesquisa para determinar quantas pessoas paravam pra ler. Em cada dez passantes, dois paravam pra dar uma olhada. Pouco, né? 

Pois é, mas a verdade é que diminuiu mais ainda.

Com o passar do tempo essa proporção caiu pra um em cada dez. Tentei revitalizar as publicações com algumas poesias, no intuito de sensibilizar o coração dos possíveis leitores. Publicava principalmente as obras de autoria do nosso poeta maior, Carlos Drummond de Andrade. Mas de nada adiantou. Havia alguns dias em que ninguém parava para ler.

Meu “jornal do poste”, padecendo do desprezo dos leitores e da inclemência das águas, teve vida curta. E acabou com o início da estação das chuvas, que destruíam as páginas do jornal rapidamente. Rendeu-me, principalmente, as primeiras acusações de desequilíbrio mental. Diziam pra minha mãe:

− Seu filho é meio maluquinho, né?

Ela ria, sem dizer nada. Talvez ela fosse mais doida ainda, por isso entendia meus devaneios e permitia essas minhas pequenas desventuras. 

A máquina de escrever, novamente ociosa, ficou lá esperando pacientemente a minha inspiração para que pudéssemos formar uma dupla. O tempo passou e ela até foi ficando um pouco desbotada. O azul claro da tinta foi ficando cada vez mais clarinho.  

Nossa parceria demorou, demorou, demorou…

Um dia, porém, quando eu já estava desiludido e desanimado, ela aconteceu. A inspiração apareceu do nada e o primeiro texto criativo e datilografado surgiu. Depois desse, muitos outros encontros ocorreram.

*José Nário é escritor e tem três livros publicados de forma independente. 

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