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Do telefone celular ao radinho de pilha

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Embora pareça incorreta, é exatamente essa a ordem que eu quis destacar. Na terrível e recente tragédia que se abateu sobre o Rio Grande do Sul, um imenso contingente da população chegou a ficar totalmente incomunicável. A energia elétrica foi cortada em muitos lugares, em razão dos sinistros ou simplesmente por segurança. Assim, em pouco tempo os telefones celulares e torres de retransmissão ficaram inutilizados.

E os radinhos de pilha, ainda presentes em alguns lares do interior do país, foram ressuscitados para o bem da comunidade. Durante vários dias, as únicas informações que chegavam a muitas localidades isoladas eram através desses obsoletos aparelhinhos. Toda a moderna tecnologia atual tornou-se inútil quando a energia elétrica teve que ser desligada. Situação que lembra muitas narrativas distópicas que assistimos no cinema.

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E o uso providencial dos radinhos me trouxe lembranças de fatos da minha juventude. Vamos a elas.

Maria das Dores. Mais conhecida por Dasdô. Nome muito apropriado. Não sei se ela, com o passar dos anos, passou a levar a sério demais o seu nome de batismo ou se foi um caso de premonição dos pais. O certo é que ela todo dia chegava para trabalhar com uma dor diferente.

A mais comum era a dor de cabeça. Mas podiam ser dores de pernas, tornozelos ou joelhos. Ou todas ao mesmo tempo. Ou dor nos rins, no fígado, nos olhos, nos dentes. Até dor de coração ela tinha continuamente. Mas não morreu disso, que eu me lembre.

Assim era a Dasdô, empregada doméstica que trabalhou na casa de minha mãe, anos ─ muitos anos ─ atrás. Mas as dores, verdadeiras ou fictícias, não a impediam de trabalhar normalmente, o dia todo, todos os dias, com exceção da folga semanal, geralmente o domingo.

Era muito ativa e solícita. Sempre pronta para qualquer tipo de serviço que se apresentava. Lavava, passava e cozinhava com a mesma disposição. Só tinha um ponto em comum em tudo que ela fazia: estava sempre acompanhada pelo som de um radinho de pilha, daqueles do tamanho de um maço de cigarros, que ela trazia sempre ligado no bolso do avental.

Se não estava reclamando de alguma dor ou fofocando em voz baixa ─ sem maldade, segundo ela ─ a Dasdô estava cantarolando a melodia ouvida no radinho. Sempre um dos ídolos populares da época: Odair José, Amado Batista, Nelson Ned, Nilton César e outros românticos ─ e tremendamente melodramáticos ─ do cancioneiro nacional.

De vez em quando ela acompanhava a missa transmitida diretamente do Santuário de Nossa Senhora Aparecida, cantarolando os hinos católicos mais conhecidos da época. Nunca mais me esqueci de alguns desses hinos.

A comunicação oferecida pelo radinho de pilha, uma revolução permitida pela invenção do transistor, na década de cinquenta do século vinte, era num só sentido. O radinho falava e a Dasdô ouvia. Mas, mesmo assim, era algo sensacional. Dava pra carregar a informação e a música pra todo lado.

Embora revolucionária, a tecnologia nem se compara com os dias de hoje. Com o advento do telefone celular, a informação não é mais de mão única. A interação atinge níveis inimagináveis para nós, humanos nascidos no século passado.

Eu, que na minha juventude era apaixonado por ficção científica, nunca imaginei, lá por aqueles idos, que viríamos a nos comunicar dessa forma tão interativa e tão intensa. Tão intensa e interativa que chega a provocar desvios de comportamento.

Uma variedade imensa de redes sociais, telefonemas com imagens, streaming e até comprinhas diretamente num Shopping da China. Um espanto para mim e muitos outros que já estão num estágio avançado de existência na terra. Porém, com todas essas maravilhas disponíveis para nosso deleite, muita gente faz uso do celular como se fosse um simples radinho de pilha, a exemplo dos viventes na década de setenta do século passado.

E dia desses, durante uma caminhada, eu pude presenciar uma dessas ocasiões.

Era uma manhã de domingo e eu caminhava meio distraído pelas ruas da cidade, como faço regularmente três vezes por semana. De repente ouço alguém cantando hinos religiosos católicos nas proximidades. Imagina o que me veio Imediatamente à mente? Exatamente! A Dasdô e o seu radinho.

Como não havia igrejas por perto a cantoria só poderia vir de alguma residência próxima ou, mais dificilmente, de alguém que também caminhava pela rua. Embora mais inverossímil, esta última era a opção correta.  Prestando atenção, notei que os louvores entusiasmados vinham de uma senhora que caminhava na minha frente.

Prestando mais atenção ainda, concluí que ela acompanhava alguma celebração pelo celular, através dos fones de ouvido do aparelho, e soltava a voz com muita fé e devoção. Além das lembranças da cantoria da Dasdô, eu ainda residi durante mais de trinta anos ao lado de uma igreja católica. Por isso posso identificar imediatamente qualquer hino católico mais tradicional.

Na sua abstração, provocada pela concentração na envolvente melodia do hino, a mulher que caminhava na minha frente cantava em altos brados. E, por onde passava, provocava surpresa e até mesmo risadas disfarçadas nas pessoas.

Confesso que, naquela manhã de domingo, caminhando pela rua e ouvindo a mulher cantando, eu fiquei emocionado, apesar de não ser religioso. E invejoso. Invejoso daquela fé, daquele desprendimento e daquela coragem da mulher.

Já me peguei muitas vezes falando sozinho pela rua. Coisa de escritor. Mas cantar eu nunca cantei.

Bem, sempre é tempo de começar…

*José Nário é escritor e tem três livros publicados de forma independente. 

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